Confundir vida com visibilidade
Sou visto, logo existo. Esta é a lógica actual. Como se uma vida discreta não pudesse ser uma vida plenamente vivida, significativa, gratificante. Como se os momentos de qualidade só pudessem ser assim definidos se visualizados na hora (fotografia ou vídeo por sms, twitter, facebook). Como se o olhar dos outros fosse a confirmação da sua existência, do seu valor.
Reparem como hoje em dia ninguém quer aparecer depois do verão sem estar minimamente bronzeado, como se isso fosse a prova de umas boas férias. Ou com histórias de viagens até aos pormenores. A tal necessidade de aprovação social. Ou o selo de garantia exterior: a minha vida tem valor.
Um dia não muito longínquo as pessoas irão valorizar o que hoje temem e até desdenham, aquilo de que fogem como o diabo da cruz: o silêncio, a privacidade, a tranquilidade, o anonimato. Esse espaço-tempo só seu, aquele momento-intervalo-pausa, na companhia das pessoas significativas da sua vida. Essa é a dimensão da verdadeira qualidade de vida, a vida afinal, não a visibilidade. Virão de férias sem se preocupar em torná-las visíveis. Os únicos vestígios que trarão consigo serão um ar mais tranquilo ou um sorriso nos lábios. Não sentirão essa necessidade impulsiva de se expor num qualquer palco: amigos, colegas, etc.
Esta exposição de informações pessoais no Facebook parece que coloca as pessoas em situações embaraçosas ou mesmo de risco. Já há quem avise para evitar colocar os seguintes dados: data e local de nascimento, planos de férias, morada, confissões, pistas de password, comportamentos de risco.
O Facebook ainda não é utilizado nas suas melhores potencialidades, as que permitem a comunicação: troca de ideias e mobilização para a acção. Serve a visibilidade, a exposição, a publicidade.
É certo que há aqui um serviço psico-social digamos assim, é um antídoto poderoso contra o isolamento e a solidão. A dimensão virtual de uma existência, à séc. XXI.
Mas a tendência que irá prevalecer será, a meu ver, a da comunicação e da mobilização de grupos com objectivos definidos de intervenção.
